Carta a quem me fez mãe.

 Querido filho ou filha,

    Provavelmente você estaria em meus braços agora. A data provável do parto era dia 02 de julho. Quando descobri a gestação, seu pai estava ajeitando a casa que iríamos morar definitivamente juntos, eu estava nos três trabalhos, na correria de sempre. Me lembro bem desse dia. Tinha ido ao ginecologista acompanhar o mioma e a ademoniose, que por muitas vezes, quase me fez não ter esperança de ser mãe. Era mais fácil negar o desejo, do que deixá-lo fluir. Cada um com sua forma de sobreviver. 

       Entreguei os exames pré-concepcionais para a médica, ainda com muito medo se um dia poderia ser mãe. A médica folheando os exames riu e disse: - Você está grávida.

        Eu disse: - Não doutora, é o mioma... 

        - Escolha o nome do seu mioma e faça esse BHCG para tirar a dúvida. Parabéns.

        Saí do exame meio atônita e avisei ao Marcelo. Passei no sabin e fiz o exame. Depois, fui levar Farofa para castrar no Gama. Minha mãe estava comigo e não contei nada. Quando voltamos da castração umas 17h, saiu o resultado. Estava grávida.

            Passei na farmácia, comprei remédios para Farofa e uma mamadeira. Cheguei em casa e deixei Marcelo tirar os remédios da sacola até ele chegar na geladeira e falei:

               - Parabéns, papai. (sou péssima em fazer boas surpresas).

             Não deu muito tempo de sentir muitas coisas. Fui afastada do trabalho, comecei pré-natal e fiz a primeira ecografia. Escutamos o seu coração.

                Algumas semanas depois, senti muita dor e um corrimento rosa se iniciou. Fui ao médico e pediram para repetir o exame alguns dias depois. Naquele dia, fui ao Anchieta e fui muito mal atendida. Não te escutaram. Fizeram perguntas invasivas. Eu saí daquele hospital desorientada, falei com a minha obstetra e ela pediu para esperar mais alguns dias também. Eu me lembro bem da dor da expulsão e de como aquele sentimento de aceitação que tomou conta de mim. Fui atendida em outro hospital por uma médica doce, respeitosa e que explicou o que tinha acontecido. Numa sexta-feira, você resolveu partir, em casa. 

               Seu pai e eu tentamos nos despedir da forma mais delicada que consegui pensar no momento. Eu fiz piadinhas sem graça no meio das lágrimas. Voltei do lago vazia de você, bebê. De muitas coisas que eu estava tentando construir na cabeça, mas com um outro sentimento de que eu realmente poderia ser mãe sem medo dos caminhos sombrios que eu construia na minha mente, que eu poderia deixar de um pouco de lado as minhas inseguranças sobre tantas questões. Eu precisava apenas amar. Foram muitas lições preciosas e principalmente uma saudade bonita que ficou aqui dentro. Você foi o nosso primeiro integrante da família e continuará nela.

                Espero que você tenha sentido esse amor enquanto esteve por aqui. Eu e seu pai agradecemos a oportunidade de nos fazer seus pais e agora, com mais tranquilidade, poderemos cuidar das suas irmãs. Você foi a nossa primeira viagem para esse mundo da maternidade. Obrigada, filhote! 


p.s.: passei semanas para escrever esse texto e ainda assim, não consigo expressar tudo que sinto aqui.

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