Nossos 30 dias.
Não queria sair do hospital. Tive uma crise de ansiedade na primeira noite em casa e tomei rivotril. Marcelo com sua serenidade, segurou muito a mão. Teve que ser colo para três.
Parece que tem pouco tempo que eu tirei os pontos. Mais tempo ainda passou, que lembro que quando eu tossia, pensava que meus órgãos iam sair ou estava andando corcunda com a dor da cesária. Levantar era muito difícil. A cirurgia foi mais difícil do que imaginei.
Clarice nasceu primeiro, às 15h58. Minha obstetra mexeu no meu abdome e logo estava com ela ao meu lado, com aquele chorinho sentido. Elena demorou 6 minutos mais a sair e foi para longe. Eu não entendia o que estava acontecendo, depois meu esposo voltou para dizer que ela tinha ficado no oxigênio. Eu não tenho o menor lapso temporal disso tudo, mas foi por volta de 2h de lonjuras. Eu estava meio apagada, letárgia e não entendi bem o que aconteceu. Lembro do médico anestesista tentando aplicar a raqueanestesia e perguntando se eu tinha escoliose e brinquei que tinha medo de ficar paralítica com a anestesia. Parecia uma serra na minha coluna, mas não doeu. Lembro que demorou para entrarmos. Lembro da minha mãe e tia ansiosas na recepção. Lembro que tocou " Alice não me escreva aquela carta de amor" e quase mudamos o nome para Alice.
Era o fim da minha gestação e o começo de profundas transformações. Foram 30 dias intensos. Da descoberta da força do corpo que gera e das fragilidades do pensamento da mãe que nasce. O medo foi o primeiro sentimento. Eu que sempre achei que dava conta de tudo, me vi completamente desajeitada com os dois seres humanos que chegaram. Fiz curso, li livros, vi vídeos, ouvi demais, mas agora são minhas filhas e nós. Nenhuma teoria explica. Ainda me sinto desengonçada ao dar colo, acordo assustada com os chorinhos. O amor nasce doendo.



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